Eu morava em Curitiba com um tio meu enquanto minha mãe era destruída por um câncer impiedoso na cidadezinha de União da Vitória.
Ela me disse, deitada em sua cama com o rosto corado, mostrando que a vida ainda habitava seu corpo, que seria melhor eu me afastar durante o seu tratamento e que fosse um bom garoto independentemente do desfecho daquela história. Na noite seguinte embarquei para a capital do estado viver com meu tio Zique.
Dois anos depois, em uma madrugada fria e tomada pela neblina típica de Curitiba, tocou o telefone rasgando meu coração adolescente, já ciente da notícia que seria transmitida pelo aparelho. Minha mãe passava a ser um corpo inerte.
Chorei pouco, as lágrimas insistiam em se esconder e a viagem para o interior foi confusa, trazendo um misto de dúvida pela perda e de uma bomba relógio ensurdecendo com seu tic-tac chegando ao fim.
Ao colocar o pés no solo da infância, já não havia brincadeiras, sorrisos ou alegrias, tudo era cinza. Meu tio me guiou pelo braço até a capela municipal e o cheiro das flores, o ajuntamento na calçada e meu irmão parado na escadaria esboçando um pálido sorriso fúnebre encerraram a contagem regressiva da bomba relógio e então desabei. Chorei de dor.
Não consegui ver minha mãe descer à sepultura, fiquei em um banquinho, tão gelado quanto o meu coração, no outro lado do cemitério.
Até hoje, quando acordo nas madrugadas, imploro à Deus para que o telefone não toque quando houver neblina, para que o tic-tac nunca mais ecoe no meu peito.
As perdas são devastadoras. Tempo impiedoso, tem compaixão de nós!
:(
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